ABROLHOS - UMA AVENTURA
Qualquer pessoa que estivesse ouvindo em um receptor de rádio comum, a conversação travada entre aquele grupo de radioamadores brasileiros, em uma noite pelos idos de 1993, diria - "gente maluca " - sem pestanejar.
Para o desavisado, pessoa dita "normal " , o radioamador é um sêr estranho.
Interessante é que ele, radioamador, pensa : "não sabem o que é bom ..."
Entre um e outro grupo, diriamos que o primeiro está envolvido com as coisas comuns do dia-a-dia , enquanto o outro, dá um passo à mais , para a frente.
Mas, o que tramavam aqueles radioamadores, naquela noite ?
Eram o Stukert, lá de Brasilia, com o Daniel, piando por Fortaleza e o Pedro, charlando pelas praias de Florianópolis que, entre um assunto e outro, acertavam o pensamento para realizar um dos sonhos de todo o radioamador que se preza : fazer uma operação em uma ilha brasileira. E, naturalmente, entre uma opção e outra, a escolha foi a de viajarem até o Arquipélago dos Abrolhos , maravilha conhecida por filmes e reportagens da TV e cinema, uma vez que outra.
O que falaram, só eles sabem ou, talvez tenham esquecido o quanto deitaram verbo.
O assunto tomou vulto quando finalmente, em conversa telefônica, Daniel manifestou a vontade incontida de ir, nem que fosse a nado, empurrando uma bóia com os equipamentos ... Rapaz determinado esse , não ?
Coube ao Pedro segurar o barco e procurar o Stuckert para dizer-lhe que o jeito era procurar recursos para o empreendimento, já que não seria pouco o que viria pela frente.
Quinhentos e dezessete quilos de boa vontade gritaram bem alto : vamos em frente que atrás vem gente e, era começada a odisséia, que não foi a Iliada de Homero, mas que iria render um livro, futuramente.
O tempo foi passando. Nasceu a A.E.I. que é a Associação de Expedicionários Ilhéus e que, pelos seus fundadores, entre outros, o PP5SZ, o PT2 GTI e o PT7BI , que aqui estão na ordem alfabética dos prefixos de indicativos de rádio para não haver proteção, passou a desempenhar um papel fundamental nas negociações com as autoridades que seriam envolvidas no conflito, ou melhor, na aventura.
Oficio foi, fac-símile também e muito telefonema e a coisa não andava.
Os canais competentes estavam esclerosados, quase entupidos ou então, em nenhum deles entendiam o que aqueles loucos estavam aprontando.
Ao par dos contatos com as autoridades, continuava a assombrar os envolvidos, o fantasma dos recursos para as passagens aéreas, principalmente, e mais o que seria necessário. Havia tanta coisa, meu Deus !
O Stukert, acendendo a luz no meio do túnel, um belo dia confirmou a existência de três passagens aéreas à disposição . A moral da tropa foi ao céu.
De posse de ofícios da AEI para a Direção do IBAMA e para a do Minicom , em Brasilia, o bom Stuckert foi à luta, insistir nas respostas daquilo que estava emperrado.
Nada, mais uma vez. E o tempo passando , deixando a moçada insegura .
Apareceram mais candidatos a participarem da aventura, entre outros, o PY8MD da longínqua Belém, o PP1CZ que é um expedicionário emérito, o PT2NP que oferecia seus préstimos junto ao antigo ninho, o BB, para tentar ajuda, o PY1UP e colegas de Fortaleza, da Bahia e lá não se sabe mais de onde.
O time ia se formando e as licenças, nem por perto. Chegavam as festas do Natal 93 !
Eis que surge uma resposta do IBAMA, de Brasilia, dirigida à AEI . Podiam os aventureiros arrumarem suas malinhas, pois, por esse órgão, as dificuldades estavam aplainadas, só faltando os contatos com a equipe lá da Bahia, o que foi feito a seguir, por telefone, positivamente.
E o resto ?
Pelo Minicom, em telefonema entre o PP5SZ e o Diretor do setor competente para conceder os indicativos especiais, ficou acertado que, determinadas as datas do evento, era só voltar a fonar. Tranquilidade por esse lado. Janeiro de 94 ia a galope !
Continuava empacada a última direção, a qual só foi percebida ser necessária, já no meio do caminho. Era a licença para desembarcar na ilha de Santa Bárbara para, de lá, instalados os equipamentos, irradiar para o mundo.
Oficiado à autoridade da Armada , a quem sabíamos competia nos licenciar, passamos a aguardar com ansiedade a resposta.
Veio, um belo dia , já no início do ano , trazendo uma ducha gelada em meio ao calor do trabalho. Era uma licença, mas com metade do valor para o grupo. Permitia o desembarque mas não o pernoite. E já estávamos em meio a fevereiro ...
Não fosse o colega PY1USK , o nosso amigo Comandante Fernando, que na época estava pertinho das ante-salas decisórias, e a operação seria abortada .
Telefonemas, faxes , novos ofícios explicativos foram enviados no afã de esclarecer tim-tim por tim-tim o que era uma Dxpedição .
Em resumo, depois de um parto onde o bebê - nossa autorização para desembarque e operação - chegou, restavam menos de 48 horas para definir o restante.
Estavam certos para embarcarem na aventura : PP1CZ-Léo, PP5SZ-Pedro, PT2GTI-Stuckert, PT2HF-Lunkes, PT2NP-Paulo e o PT7BI-Daniel , na ordem já mencionada.
O Paulinho estava na certeza da chegada dos recursos do BB e Stuckert, confiando neles, desligou-se e deixou de lado as promessas que tinha no bolso.
Na véspera do dia marcado para a partida de cada lar, a bomba estourou, já à noitinha : nada de positivo como ajuda. O Pedro considerou-se desligado, deixando o grupo livre para seguir em frente, se pudesse. O Daniel agarrava-se à esperança de um milagre de última hora . O Paulo, aborrecido pelo decurso dos acontecimentos, ainda tinha sua dose de otimismo. Estavam certos o Daniel e o Paulo, porque o Stukert soltou o seu grito de "independência ou morte" ou - salve-se quem puder - intimando a que os desistentes fossem, de qualquer jeito, que ele se responsabilizaria, sob pena de serem os ausentes, os responsáveis pela não execução da operação !
Havia menos de cinco minutos para decidir ... e pensar do que dizer ao mundo dos radioamadores que estavam esperando por essa expedição, se ela seria ou não realizada.
Decisão: seja o que Deus - brasileiro - quiser : vamos lá ! Com o aval do Stuckert, as passagens foram marcadas e , por volta da uma e trinta da manhã, foi todo mundo dormir, excitado, para acordar daí a pouco para seguir para o aeroporto, o Pedro e o Daniel. Os integrantes de Brasília seguiriam de manhã cedo por terra, na pick-up do Stuckert. O Léo, era o mais folgado de todos. Residia no meio do caminho, em Vitória.
A manhã chegou linda, cara diferente, de quem vai receber gente nova pelos céus brasileiros. E assim foi.
Os três companheiros de Brasília assumiram a estrada para vencer a distância até o litoral da Bahia em duas etapas. Entre mortos e feridos, ficou para trás o desassossego e o nervosismo, dando lugar à gana de chegar logo para descontrair.
O Pedro foi ameaçado no aeroporto de Vitoria por dois vigaristas que desejavam espolia-lo no que pudessem. Quase. Sorte ele ter verificado que eram o Léo e um seu fiel escudeiro que estavam tentando passar-lhe um gostoso trote, pois, eram desconhecidos do recém-chegado. Esqueceram das fotos que um, o Léo, tinha mandado para ele ...
Fazendo hora, ficaram os três aguardando o Daniel , que chegaria logo em seguida.
Quando o avião esperado chegou e despejou seus passageiros, a ilustre figura não foi identificada. Nenhum radioamador desembarcara ... Ficou um pobre mascate, com sua enorme mala, lá num corredor do aeroporto. Seria ele, o faladíssimo Daniel ? Suspense.
Com uma cara de pau tremenda, o Pedro achegou-se e foi logo saudando-o :
- Como vai o amigo Daniel ?...
Ufa ! Era ele mesmo . Abrindo uma enorme janela entre os maxilares, a fera soltou o verbo característico:
- Bichinho ... são ôceis mesmo ?
Abraços e mais abraços e lá se foram os três, numa alegria parlativa, que demonstrava o que estaria por vir a seguir.
Visita ao Supermercado, compra de todos os gêneros para a viagem e estadia e mais as lembrancinhas para os residentes da ilha e seus filhos, foi o que deu para fazer antes seguirmos para o descanso noturno.
Banho tomado, jantar degustado, as últimas do Jornal Nacional da TV e um bom travesseiro foi que veio depois, lá no Hotel PP1CZ, digo, no apartamento do Léo.
Pelo meio dia, os três mosqueteiros pegaram a estrada. De Vitoria ao litoral da Bahia, em Caravelas, foram horas agradáveis, conhecendo alguma coisa da região.
A cidade é pequena e, mesmo assim, demorou um pouco a ser localizado o Chefe do IBAMA , que estava nos esperando para serem acertados os detalhes do uso do barco do Orgão. Tudo acertado, seguimos para jantar e aguardar a chegada dos brasilienses, o que aconteceu na hora da sobremesa. Chegaram cansados, falantes, mas cheios de entusiasmo. A noite de 23 de fevereiro de 1994 seria curta ...
Carregados todos os equipamentos e bagagens no "Benedito", barco do IBAMA à disposição, tratou-se do pernoite que foi em albergue junto ao cais. A cidade é pequena e pobre, com pouco conforto, mas recebeu-nos, hospitaleira, com ar de quase cumplicidade.
Tarefa última, à noite : pintar os letreiros na camiseta do Daniel, que havia trazido uma a menos, para o grupo. Até que saiu bem. Depois, bercinho, que todos estavam no prego. O sono custou, mas chegou, afinal.
A manhã despontou radiosa, com o Daniel filmando com sua câmera de video, as redondezas e o embarque . O ar estava cheirando a aventura naquele 24 de fevereiro.
Finalmente, o barco fez-se ao largo e ensaiou a volta para tomar a direção do oceano.
Reunião à bordo, dúvidas, reclamos e instruções realizadas e o horizonte tornou-se o infinito sobre as águas à nossa frente. Quatro horas certinhas, entre chacotas, fotos históricas, reportagem amadora para a câmera do PT7BI e uma feia mareada do heróico PT2HF, que fez a viagem sem louros, pois, estava fora de seu ambiente, que é o céu azul, que estava de brigadeiro, diga-se ... Mas chegou vivo .
Quando Abrolhos foi avistada, a emoção tomou conta de todos. Aproximava-se a realização daquele sonho sofrido por longos meses de espera.
Na chegada, fomos recebidos pelo Oficial chefe da Sinalização da Marinha na região, o Cmt Airton, que nos acomodou nas instalações próximas ao Farol de Santa Bárbara onde passariamos os quatro dias operando.
As fotografias de praxe foram tiradas, onde uma delas, sabiamos, seria parte do QSL - os seis aventureiros Expedicionários Ilhéus atrás da bandeira brasileira .
Nosso engenheiro de antenas e equipamentos de rádio, o Lunkes, assumiu a montagem das antenas, auxiliado por todos os magrinhos. Os mais "cheínhos" ( um ) encarregaram-se de montar os transceptores . A sala de rádio da guarnição revelou-se, logo de início, um local privilegiado para ligar as tomadas.
O Léo, muito orgulhoso, associou-se ao Paulo e foram montar seus equipos mais longe, pois, acreditamos até hoje, não desejavam se misturar à "gentinha" que iria fazer só fonia, eles, os nobres da telegrafia ...
Brincadeira. Foram grandes companheiros, durante toda a operação.
Dureza, mesmo, foi acertar o início das transmissões . O Daniel queria porque queria ser o primeiro a abrir o bico em rádio. Tinha suas carradas de argumentos e razões. Pena que não convenceu ninguém . A gozação foi geral. Pudera.
As transmissões da estação PYØA iniciaram algumas horas antes da de PYØB naquele memorável dia 24 de fevereiro de 1994. Em fonia a primeira e CW a segunda.
No final da tarde, tudo pronto, fomos para o "Benedito" onde um jantar estava pronto para refazer nossas combalidas forças. Como estava bom aquele bife acebolado...
Daniel, menino arteiro, deu um jeito para abrir a chamada geral de PYØA .
Minha gente, nem queiram saber o sabão que levou na hora, tendo sido motivo de chalaça pelo resto do período da expedição ...
Tudo dentro da maior esportividade, pois tinha sido estipulado que facões, escopetas e outros artefatos bélicos deveriam ser deixados em terras continentais, já que nas ilhas não haviam feras ou bandidos piratas . Valeu a caçoada ...
Sobre a operação, muita pouca coisa há que contar, já que cada operador desincumbiu-se de seus horários de trabalho com desembaraço, atenção e entusiasmo.
Foram utilizados equipamentos Kenwood - TS50S , TS-450S e TS-850S com antenas dipolos, HY Gain vertical, R7 Crushcraft nas bandas de 40m,20m,17m e 15m.
O somatório geral foi para mais de 5.500 contatos , onde metade foi em fonia e metade em telegrafia. Vale ressaltar que em CW era um monte com dois heróis e que em Fonia era só um pingado de quatro descansados ! Hi ...
Os dois primeiros dias foi de pauleira. Ninguém brincou em serviço. Durante cada turno, o operador dava o melhor que podia de si. Os outros, dependendo dos horários, ou aproveitavam para tirar uma pestana ou davam uma volta pela ilha, conhecendo os bodes e cabras, aves raras e seus ninhos ou, simplesmente, olhando a paisagem e filosofando.
Tinha momento para tudo . Dias calmos e noites também, exceto na de quinta para sexta quando armou-se um temporal, ventos fortes, batendo venezianas das janelas e acordando alguns. Pela manhã, no entanto, a paz estava de volta e o dia ensolarado.
Só quem aporta na ilha de Santa Bárbara, com calma e tempo livre, pode descrever as belezas que a natureza deixou ali, para mostrar ao homem que é ela quem manda.
A ilha é uma rocha só . Calva em alguns lugares, como retrato do alto da cabeça do Pedro, extendendo-se por algumas centenas de metros para cada lado das instalações da estação-rádio e casas do pessoal residente, totalizando mais de mil metros.
A vegetação é rala, mas fornece sustento à vida selvagem local, tanto para a nativa como para a que foi implantada há dezenas de anos, quiças há séculos. Em locais não muito distantes das habitações, as aves - fragatas em sua maioria - tem seus ninhos no solo. São filhotes e ovos, tranquilamente expostos para serem olhados, sempre o mais de longe possível, para não interferir naquela vida. São mansas, desconhecendo a malícia humana. Sobrevoam a ilha e as águas ao redor, sentinelas, incessantemente.
Nas águas translúcidas, pudemos sentir a grandeza da Criação, desfrutando, tanto à vista como sob a superfície, a companhia de cardumes de coloridos e tranquilos peixes, desconhecidos para nós. Uma barracuda, espécime considerada feroz , ali, naquela paz, passeava muito orgulhosa, qual melindrosa antiga, entre os nadadores. Boca feia mas olhos de desprezo . Era de ficar sem fôlego, o que , aliás, aconteceu à miúdo.
Voltando às coisas mais terrenas, a quinta e sexta feira, como já mencionado, transcorreu em terra, na ilha.
Uma ligeira passagem pelos locais com acesso ao mar, mostraram a origem vulcânica da ilha. Pequenos seixos negros espraiavam-se em meio à pouca areia. Como bom colecionador, pegamos uma ou duas daquelas pedras para levar como recordação .
Ledo engano . O colecionador seria frustrado pela vigilância de um estagiario do IBAMA que, mui gentilmente nos puxou as orelhas e nos fez devolver à praia o que a ela pertencia. Ficamos convencidos de que a preservação ambiental era real .
No sábado, pela manhã, as estações saíram do ar, esfriando seus elementos, enquanto fomos levados a conhecer o local de mergulho, onde ficam os turistas comuns, já que não estivemos ,jamais, enquadrados nessa espécie barulhenta e buliçosa.
Ali, nas cercanias da ilha Siriba, uma das cinco que formam o arquipélago, na companhia dos residentes graduados da Marinha, foi que passamos as horas mais descontraidas da estadia. Voltamos a ser as crianças que cada um traz em si e entregamo-nos às águas com uma soltura total. Foi ali que participamos da vida marinha da qual teremos eternas lembranças.
No mergulho em águas cristalinas, conhecemos a flora e fauna de um mundo que nos falava em eternidade, na soberana e silenciosa beleza do fundo do oceano...
Vale ressaltar que uma coleção de fotos foi tirada por parte de cada expedicionário, além da filmagem do Daniel e da coleção do fotógrafo oficial da caravana , o profissional Stuckert.
Após aquelas horas amenas, onde também conhecemos tartarugas e estrelas do mar, tratamos de retornar, já que o céu estava escurecendo lá para as bandas do fim do mundo, avisando que uma tormenta chegaria em breve. Nesse retorno, contornamos toda a ilha de Santa Bárbara, conhecendo seus paredões a pino, prenhes de vida, pelos ninhos incrustados em cada saliência, de outras espécies aladas. Impressionante.
Ao final, a tempestade afastou-se, o que significou que as cisternas das casas deixaram de receber sua reposição de água doce.
À noite, outra surpresa nos aguardava. Durante o dia , ouviramos boatos de que uma cabra seria caçada para servir de carne de churrasco à noite. Estávamos todos aflitos, esperando pela hora em que seríamos chamados para o churrasco-banquete. Quando isso aconteceu, chegados ao terraço do prédio da estação-rádio, o cheiro e fumaça da churrasqueira traíram o que seria servido. Peixe fresco, puro, pescado pelo pessoal de barcos pesqueiros que haviam aportado na ilha durante a tarde, ali estava sendo tostado para nós. Vieram também as esposas dos graduados residentes na ilha, anônimas heroínas que trocam todas as comodidades da cidade pela solidão do alto-mar, acompanhando seus maridos durante o tempo que ali costumam servir. Rendemos nossa homenagem a estas valorosas guerreiras que enfrentam, muito mais do que seus homens, as agruras das condições impostas. Eles tem sua faina diária. A elas sobra o tempo do lar que, a maior parte das vezes, não preenche as vinte e quatro horas do dia, semana a semana, mês a mês, durante dois a três anos.
Mas, dizíamos, a noite foi memorável. As caixas de latinhas de cerveja, não recordo se foram duas ou três, naquela noite, já que o Daniel havia assaltado a geladeira, há dias, foram consumidas com descontração e alegria. Cada uma, vazia, era religiosamente recolhida ao "cemitério", para ser prensada e retornar ao continente ... Poluição zero!
Mas, voltando ao peixe na brasa ... Ah ... estava uma delícia . Só quem pesca e faz seu peixe na hora, sabe o sabor da coisa toda. Imagine-se o saborear espécies diferentes...
Eram mais de meia noite quando arrastamos as cadeiras no cimento, num sinal de que estávamos cansados e com vontade de ir para o berço. Todo mundo se pôs ao largo.
Menos o Daniel. Lá estava ele, depois do Churrasco & Cias. , grudado no CQ...CQ...
Reconheça-se : o homem fez muito mais de mil contatos ... Haja atividade !
Chegou o domingo. Era o dia do retorno e tínhamos que sair da ilha antes do meio dia, caso contrário a maré baixa nos deixaria sem condições de partir até o anoitecer, atrasando tudo, ao tempo em que o IBAMA já manifestara que tinha necessidade de seu barco de volta até a tarde daquele 27 de fevereiro de 94.
Enquanto uns recolhiam material e desmontavam antenas, outros já os levavam para a praia de embarque. O carrinho de mão foi o meio de transporte utilizado.
Tivemos um arremedo de formatura militar com os integrantes da guarnição, na hora das despedidas, muito emocionante. Deixamos e fizemos bons amigos.
Os tripulantes do "Benedito " estavam atentos para nos receberem e levar-nos de volta.
Os pássaros voavam em círculos sobre o barco, e muitos deles nos acompanharam por várias milhas, até quase perder as ilhas de vista , como uma escolta de despedida !
Mata, coração. A mãe-natureza dando suas despedidas para nós, simples mortais ...
O retorno transcorreu sem problemas. O Lunkes, agora macaco velho, enganou o mar. Deitou-se e ferrou no sono, pois, dizia ele, quem dorme não sabe onde está. E deu certo. Não enjoou durante todo o percurso, indo acordar já próximo da costa, em águas mansas.
Desembarque, despedidas e recolher bagagem aos carros ocupou pouco tempo.
Os brasilienses puseram-se na estrada e nós fomos procurar gasolina.
Na cidade, todos os postos fechados. Nem achamos os bombeiros. O ponteiro do marcador de combustível marcava na reserva quando decidimos o "seja o que Deus quiser" , pondo-nos também na estrada até a próxima cidade, tentar a sorte de domingo.
Deus quis. Encontramos um posto aberto logo na entrada, abastecendo para pisar no acelerador, rumo a Vitoria.
Assim terminou nossa aventura ao arquipélago dos Abrolhos.
O retorno teve estrada leve, avistando-se a capital capixaba ao cair da noite.
A gentileza final do anfitreão foi levar-nos, ainda suados, para conhecer um prato local, a base de peixe, à beira mar, em Vitoria.
Repousados, o dia seguinte foi consumido em visitar Vila Velha e sua fábrica de bombons, Guarapari, e dar uma olhada nas ilhas 3 Irmãs , a três ou quatro km ao largo.
Depois disso, aeroporto e retorno com volta ao lar para o Pedro e Daniel. Para trás ficaram as amizades, as lembranças e a certeza de que muita coisa marcou para o futuro.
Os amigos Stuckert,Lunkes e Paulinho tiveram tambem seu retorno tranquilo.
Aprendemos, a duras penas, o que significa organização, previsão e trabalho em equipe.
Levamos as lições e todas as suas conclusões.
Hoje sabemos que, com entusiasmo, fraternidade e desapego, milagres são possíveis.
Cada um dos expedicionários levou a satisfação de projetar o Brasil por este vasta mundo velho sem porteiras, cheio de preconceitos e disputas, com amizade e amor.
Os companheiros radioamadores do mundo saúdam, certamente, ao Léo - PP1CZ , ao Pedro - PP5SZ, ao Stuckert - PT2GTI, ao Lunkes - PT2HF, ao Paulo - PT2NP e ao DANIEL - PT7BI, os quais lhes proporcionaram mais um ponto na busca de vários diplomas internacionais e do Brasil.
Até a próxima, que atrás vem gente , pessoal !!!
(das reminiscências de PP5SZ - Pedro)