WILSON LAUS SCHMIDT, PP5RU
PY1AE - Luiz O. Ribeiro
A matéria que vem enriquecer esta edição de E-P constitui uma colaboração do colega PP5EO, Enio de Oliveira Matos, o revela um radioamador que realmente muito tem realizado no quotidiano das suas atividades como figura humana. No seu encaminhamento, diz PP5EO: “Foi com muito custo que consegui do modesto PP5RU a sua autobiografia. Demorou, mas saiu”. E completa: “Foi o Pai das Concentrações de Radioamadores da 5ª Região”. Demorou, mas saiu. E, já que saiu, vamos às “revelações” desse nosso novo companheiro do GV. Foi inoculado com o “micróbio” do rádio nos velhos tempos dos “centelhadores” (vocês sabem o que era isso, meninos?) e dos receptores regenerativos, com “99” botões para fazer uma sintonia. Tomou conhecimento do Radioamadorismo no tempo da última grande guerra, ao saber que as estações de radioamadores estavam lacradas, por medida de segurança. Conheceu dois grandes amigos da “velha guarda”: Augusto Livramento, PY5QH (falecido) e Percival Callado Flores, PY5QX. Este era então o responsável da LABRE em Santa Catarina. Em 1946 filiou-se à LABRE, recebendo o n de matrícula 3.607. Já então, como professor de Física, da Eletricidade se bandeou mais para a Eletrônica e começou as experiências com “pixiricas” de 2 a 5 watts. Em 28 de julho de 1947 recebeu a primeira licença, Classe C, para operar como radioamador com o indicativo de PY5RU. Era, então, diretor e professor num internato para rapazes, no Sul do Estado de Santa Catarina, onde a energia elétrica, quando havia, era produzida por um gerador movido a “roda d’água” (já ouviram falar disso?). Nas horas vagas, à noite, enquanto a “filharada” dormia, reunindo peças “encontráveis” no comércio e fabricando pessoalmente resistores, de fio e grafite, capacitores tubulares e transformadores de todos os tipos, resolveu montar o “Pigmeu-Gigante”, publicado na revista Antenna. Para isso, além dos alicates, serra, broca, parafusos, porcas e arruelas, e um miliamperímetro de 0-50 mA, tinha um soldador aquecido numa lamparina a álcool (ainda existente) e vontade de colocar o transmissor no ar. Na época, como sobras de guerra, apareceram as válvulas 807, irmãs melhoradas das 6L6 metálicas que, então, em termos de verdadeiro assassinato, trabalhavam até com 900 volts em placa, chegando a criar barriga... Mas como conseguir os transformadores necessários? Para os pequenos (“driver” e modulação), arranjavam-se núcleos de ferro-silício de transformadores “pitimbados”. E para os transformadores de “alta”? Solução do PY5RU: uma tesoura de alfaiate, latas vazias de gasolina, querosene, banha e papel-manteiga... Com o auxílio das lições do “Handbook 1946” e um bocado de matemática, resolveu cortar a tesoura as latas conseguidas, formando núcleos do tipo E I. Trabalho caprichado (modéstia à parte), pelo sistema Philips de então. Cada lâmina era separada da outra por uma folha de papel-manteiga. Depois de dados os descontos para o péssimo teor do ferro-”latício” em comparação com o ferro-silício, os transformadores de alta, com enrolamentos feitos à mão, apresentaram, sob carga, apenas uma queda de 5 volts sobre os 600 e 400 volts previstos. E note-se: esses transformadores nunca “pitibaram” e, parece, ainda existe algum nas mãos do atual PP5YD. Podem conferir. Pronta a “chocolateira”, foi erguida a antena, com dois mastros de eucaliptos, de 20 metros de altura. “Zeep” ½ onde para 80 metros. Descida: “escala de passarinho”. Mas tudo calculado como manda o figurino. Durante esse tempo PY5RU reformou a rede elétrica local, instalando um gerador movido a turbina. Na recepção, novamente uma “sobra de guerra”, o “Echophone” (“com perdão da palavra”, como então se dizia...). Tudo pronto para o primeiro CQ. 17 de novembro de 1947, 21 horas... - PY5RU, em experiência, chamou geral 80 metros, agradece uma reportagem, apaga e sintoniza a banda de ponta a ponta. Alô, colega em experiência, que chamou geral em 3.540 quilociclos; por favor repita o prefixo; aqui PY5SC, de Criciúma, que contesta sua chamada. E assim Letícia Garbelotto, cristal de PY5RW, batizou o recém- nascido PY5RU. Turma, que sensação! Não “ia muito pra lá das pernas”, como se diz, mas PY5RU conseguira entrar no éter, onde foi freguês assíduo nos 80 metros, com verdadeiros DX e ótimas reportagens. Daí em diante, com o soldador (agora já elétrico) sempre ligado, PY5RU em QSO com PY5RW, PY5RN, PY5RZ, PY3XE, PY3YC, PY3PV, PY5EK (o prefixo mais simpático da faixa) e muitos outros “amontoadores” ia modificando isso e aquilo; foi ficando tarimbado, e chegou a professor (que calúnia!...). Bons tempos aqueles em que a gente operava só equipamentos “made at home” e até zombava de colegas que entravam no ar com aparelhagem comercial, cujos elementos nem conheciam para dizer para a gente... Enquanto os colegas iam aumentando de potência (mania da época), PY5RU resolveu caminhar às avessas: conseguir o máximo, com o mínimo de potência, ainda que o “Pigmeu-Gigante” continuasse sempre pronto para o que desse e viesse... Com um bom receptor da linha “Hallicrafters” ainda em funcionamento e dando o máximo de importância a uma boa antena, bem “carregada”, PY5RU chegou a operar com apenas uma válvula, “cozinhando, lavando, engomando e passando a ferro”... Em 24 de fevereiro de 1950, após exames no DCT, foi promovido à Classe A. Em vez de cristais únicos, removíveis, apareceu o “Deca-Cristal”; conjunto de 10 cristais, controlado por uma chave rotativa. Foi o precursor do O.F.V. Turma da velha guarda, vocês se lembram ainda do começo dos O.F.V.? A gente começava a escutar o colega em 3.500 “quilociclos” e, com a mão no botão de sintonia do receptor, ia acompanhando a “corrida” do colega que terminava o câmbio em 4.000... Hi... PY5RU montou todos os modelos de O.F.V. que apareceram, at[e conseguir um realmente estável. Além de “hobby”, a vida radioamadorística de foi descobrimento e conquista de grandes e inolvidáveis amizades, hoje algumas já com os “filamentos apagados”. Depois de ter participado de diversos Ranchos do Radioamador Gaúcho, PY5RU, transferido para Brusque, resolveu, com PY5UR (falecido) e outros poucos labreanos locais, começar algo semelhante ao RRG, em Santa Catarina. Com a realização da primeira Concentração de Radioamadores em Brusque, nasceu o que hoje é a já conhecida e maravilhosa “Concentração de Radioamadores da 5ª Região”, que congrega radioamadores de muitas Regiões, num clima de grande fraternidade: um ano em Santa Catarina, outro no Paraná. Como “soldado”, PY5RU, sujeito a repetidas transferências, operou também como PY1BQH, no Rio de Janeiro, durante cinco anos, a partir de 1958. Voltando a Santa Catarina, encontrou ainda vago o indicativo PY5RU e o retomou em 1963, operando em Chapecó, Joinville e, atualmente, em Florianópolis. Ainda como PY1BQH, ele se tornou sócio-remido da LABRE, na qual viveu sempre integrado e também sempre em dia com o DENTEL. Na Seccional da 5ª Região ocupou o cargo de Presidente do Conselho Regional. Em 19 de outubro de 1977, de acordo com as novas normas, PY5RU recebeu o prefixo PP (PP5RU) e, ainda que pouco assíduo nas faixas, continua QRV para todos os colegas e irmãos desta maravilhosa família radioamadorística. Apesar das muitas brincadeiras e trotes, PP5RU nunca escondeu seu verdadeiro batente. Padre no começo e Bispo desde 1957, mas, sobretudo, colega e amigo esquecido do “título” quando empunha o “tijolo quente”. Em reunião comemorativa ao 1 ano de atividades da atual Diretoria da LABRE/SC, PP5RU foi homenageado com o “Microfone de Bronze” troféu instituído pela gestão anterior da LABRE e que visa a homenagear radioamadores pioneiros e os que se destacaram no Radioamadorismo “barriga-verde”. E nós, integrantes do GV, nos sentimos perfeitamente à vontade para dizer da justiça da homenagem, ao tempo em que reafirmamos o quanto nos honra termos PP5RU, o sempre bom e sincero colega Wilson em nossa companhia.
FONTE: Revista Eletrônica Popular, março/1980, pags. 301-303.