REMINISCÊNCIAS DE UM ANTIGO RADIOAMADOR IJUIENSE Dietrich Carlos Adolpho Kuhlmann deixou registrada suas reminiscências como um dos mais antigos radioamadores do Brasil Filho do saudoso médico Ulrich Kuhlmann, que dirigiu o primeiro hospital de Ijuí, Dietrich Carlos Adolpho Kuhlmann deixou registrada suas reminiscências como um dos mais antigos radioamadores do Brasil. Esse depoimento, que vamos transcrever a seguir, nos foi cedido pelo amigo Rogério Gewehr, que é também radioamador. Dietrich nasceu em Ijuí no dia 2 de fevereiro de 1915. Era casado com Hedi Scholz Kuhlmann e teve três filhos, Irene, Regina e Ricardo. Faleceu em 2 de junho de 2001, na cidade de Gramado. O relato de Dietrich Kuhlmann é este: “Fui licenciado como radioamador no ano de 1936. Era estudante de Engenharia e morava num quarto alugado numa família na Rua Coronel Vicente, em Porto Alegre-RS, uma cidade pacata, com bondes, mas sem ônibus, sem problemas de trânsito, com pouco mais de 200.000 habitantes, creio eu, muito simpática e acolhedora. Meu indicativo de chamada dado pelos Correios e Telégraphos (ainda se escrevia em “ph”). Tempos heroicos com equipamentos artesanalmente construídos em casa, receptores regenerativos a válvula, pois o transistor só foi inventado em 1948, e transmissores Hartley auto excitados, modulados na grade, na supressora ou em classe B da placa. Formei-me em dezembro de 1939, comecei a trabalhar logo depois e o radioamadorismo foi, aos poucos, sendo relegado para segundo plano. Em abril de 1941, pouco antes da grande enchente de maio, me transferi para São Paulo. Foi uma viagem de trem, com locomotiva Maria Fumaça, 76 horas de chacoalhação! Linha de ônibus não existia por falta de estradas, e a passagem de avião era muito cara, acima das minhas possibilidades. Antes de sair de Porto Alegre, desmontei minha estação de radioamador e dei todos os componentes, válvulas, capacitores fixos e variáveis, resistores, bobinas, etc., ao meu amigo Ernesto Jorge Dreher – PY3AB, então residente na Tristeza. Em junho de 1943, o Brasil, já em guerra, voltando de trem de Limeira para São Paulo, estou sentado no carro-restaurante com um colega de trabalho, quando é feita a fiscalização dos passageiros. Meu colega mostra a carteira de identidade dele, tudo bem, eu mostro a minha e recebo voz de prisão! Um vexame! Eu tento dialogar com o inspetor, indago o motivo de minha prisão, mas não recebo explicação. Ele tem ordem de prender, mas não de explicar. Meu colega, cujo crime é de estar na minha companhia, é apenas detido, não preso, como explica o inspetor. Que situação! Olhares hostis dos demais passageiros no carro-restaurante, cochichos (provavelmente “espião”, “quinta-coluna”, etc.). Chegamos em São Paulo, somos conduzidos ao DOPS, identificados, fichados e fechados cada um em cela individual, no porão. Cela simples, não exatamente de cinco estrelas, com janela bem alta, para fora, mas em vidro, de outro lado, porta de grade de ferro, também uma cama turca, com cobertor fino e roto, um vaso sanitário e uma pia. Lá estou eu atônito e atordoado. Passei três dias com frio e fome, matutando sobre o porquê desta minha situação insólita. No terceiro dia sou solto, recebo meus pertences pessoais de volta e a recomendação de me apresentar aos Correios e Telégrafos (nesta altura já com “f”). Fui para o meu apartamentozinho no centro, na Rua Aurora, era solteiro ainda, meus pais residiam em Porto Alegre, recém-vindos de Ijuí e fiquei alguns dias de cama, com febre alta e uma infecção muito feia da garganta, consequência do “ar condicionado da minha suite da qual acabava de sair”. O médico me curou, antibióticos não existiam porque toda a produção, estrangeira ainda, ia para os campos de batalha e seus hospitais. Lá vou eu aos Correios e Telégrafos, na Avenida São João, esquina da Anhangabaú. O funcionário que me atende, muito gentil por sinal, chateado com o incômodo que sofri (bota incômodo nisso!), me explica que os Correios precisavam saber que destino eu tinha dado ao meu material de radiotransmissão e recepção, pois o País estava em guerra. Não sabendo o meu endereço, pediram ao DOPS que me localizasse e providenciasse meu comparecimento aos Correios. Fiz o meu depoimento, dizendo ter deixado todo o material com o meu amigo Ernesto Jorge Dreher – PY3AB, e o caso estava resolvido. Eu, nesta altura, estava tão por baixo e com tanta raiva que comecei a destruir tudo o que se relacionava com minha atividade como radioamador. Licenças, registro de comunicados, cartões QSL (confirmação por escrito de contatos bilaterais), correspondência, literatura técnica, revistas, etc. Nas minhas sucessivas mudanças de residência (retornei em dezembro de 1943 para Porto Alegre) reapareceu um pequeno livro norte-americano “Notes on Amateur Radio Transmitter Design”, de James Millen, publicado em 1936 e um certificado da ARRL – American Radio Relay League (a associação norte-americana de radioamadores) no período de 1941 e 1942. Foram os únicos documentos que escaparam à minha fúria destruidora e qual guardo até hoje, com muito carinho. Em novembro de 1977 me aposentei. Os filhos (3) estavam encaminhados e casados e vim morar com minha mulher aqui em Gramado. Gostei da nova vida, mas, algum tempo depois, comecei a sentir uma coceira estranha. Examinei o fenômeno e diagnostiquei que era o radio bacillus que, latente por várias décadas, de repente se tornara virulento. Dirigi-me então ao DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações indagando se, na minha condição de ex-radioamador licenciado (omiti minha condição de ex-preso) eu teria alguma facilidade para retornar à atividade. Não, não tinha. Tudo bem, prestei exame para a classe B em 25 de abril de 1980 e para a classe A em 11 de junho de 1980, sem qualquer problema. Ao receber o indicativo de chamada do DENTEL, a funcionária me perguntou se eu tinha alguma preferência. Respondi que queria o meu indicativo original PY3CP. Bobagem minha porque quem iria me reconhecer e se lembrar de mim depois de 40 anos? Mas o indicativo estava com um companheiro de Cachoeira do Sul (ao companheiro, meu “sucessor”, dou um bom conselho: Não viaje de trem de Limeira para São Paulo, pode ir preso. Mas já estou virando a boca pra lá) e a funcionária perguntou se eu não queria ficar com o PY3DK, isto é, com o sufixo das iniciais de meu nome, com que, evidentemente concordei. Assim, retornei à confraria, conheci o decano dos radioamadores de Gramado, meu especial amigo Darcy Carlos Bohrer – PY3BXP, hoje residindo infelizmente em Porto Alegre-RS (infelizmente porque fiquei privado da companhia e do chimarrão dele) e, literalmente milhares e milhares de outros companheiros. Tive contatos com a Cidade do Vaticano, a República de Andorra, a expedição brasileira na Antártida, etc., mas ficou uma mágoa, a de não poder provar minha condição de um dos radioamadores mais antigos ainda em atividade no Brasil. Certo, existem ainda uns poucos companheiros de rádio daquela época, o Gustavo Welp Filho – PY3AW, o Erni Silveira Peixoto – PY3DP, mas documentos válido nada. Aí, em março deste ano de 1988, ao folhar uma revista americana de rádio, deparo com um anúncio do Callbok, uma lista com hoje mais de 900.000 radioamadores em todo o mundo que é publicada anualmente desde 1922. Escrevi para lá em 31 de março de 1988, perguntando em que ano, depois de 1936, fui listado pela primeira vez como PY3CP. Em 26 de abril recebi, com muita alegria e, porque não dizê-lo, com emoção, um bonito certificado, dizendo (traduzido livremente): “Saibam que Dietrich Kuhlmann – PY3CP, apareceu pela primeira vez na edição de inverno 1936-1937, do Rádio Amateur Callbook”, assinado pelo escritor H. J. Nelson Jr., com carimbo em relevo e autenticado por tabelião público, também com carimbo em relevo. Este certificado enfeita agora o meu “shack” (o quarto-bagunça do radioamador). Blog do Ademar Bindé ( http://www.ijui.com/blog/blog-do-binde/25678-reminiscencias-de-um-antigo-radioamador-ijuiense ) Qua, 14 de Setembro de 2011